07 de abril de 2026

Suzane von Richthofen relembra assassinato dos pais em documentário e diz que família vivia “abismo” afetivo


Mais de 20 anos após o assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen, Suzane von Richthofen voltou a falar publicamente sobre o caso em um documentário inédito de quase duas horas. Na produção, ainda sem data oficial de lançamento, ela revisita o crime pelo qual foi condenada a 39 anos de prisão e apresenta sua versão sobre a relação familiar que antecedeu o duplo homicídio.

Com 42 anos e atualmente em regime aberto, Suzane afirma na obra que viveu a infância e a adolescência em um ambiente sem demonstrações de carinho. Segundo ela, a rotina dentro de casa era marcada por cobranças, frieza emocional e conflitos entre os pais.

“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles”, diz no documentário. Ao descrever o pai, Manfred, Suzane afirma: “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco”.

Ao longo do depoimento, Suzane sustenta que o relacionamento entre os pais era conturbado e relata ter testemunhado, ainda criança, uma cena de violência dentro de casa. “Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede”, afirma. Ela também diz que não havia espaço para diálogo sobre temas íntimos e que, com o passar do tempo, ela e o irmão, Andreas von Richthofen, “foram ficando invisíveis dentro de casa”.

Na narrativa apresentada no documentário, Suzane tenta contextualizar o ambiente familiar como pano de fundo para a aproximação com Daniel Cravinhos, condenado como um dos executores do crime. “Minha família não era família Doriana. Longe disso. Meus pais construíram um abismo entre nós”, afirma. Em outro trecho, diz que “esse espaço vazio foi ocupado pelo Daniel”.

Suzane relata que o relacionamento com Daniel passou a ocupar papel central em sua vida e aprofundou os conflitos dentro de casa. Segundo ela, a mãe criticava a relação e dizia que o então namorado a levaria “para o fundo do poço”. A partir daí, descreve uma rotina de mentiras, saídas escondidas e confrontos cada vez mais frequentes com os pais.

Em um dos trechos do documentário, Suzane afirma ter levado um tapa do pai durante uma discussão. Também relembra um período que classifica como decisivo: a viagem dos pais à Europa por 30 dias, quando Daniel teria ido morar com ela na casa da família. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse”, diz.

De acordo com o relato, foi nesse contexto que a ideia do crime teria começado a ser construída. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, afirma.

Manfred e Marísia foram assassinados a pauladas em 31 de outubro de 2002. O crime foi planejado, segundo a investigação e a condenação judicial, por Suzane, e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.

No documentário, Suzane tenta se afastar da execução direta, mas reconhece a responsabilidade pelo desfecho. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”, afirma. Em seguida, completa: “A culpa é minha. Claro que é minha”.

Ao relembrar a noite do assassinato, Suzane sustenta que não participou diretamente da execução dos pais. Segundo seu depoimento, ela permaneceu no andar de baixo da casa enquanto Daniel e Cristian estavam no pavimento superior. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, relata.

Apesar disso, admite que tinha plena consciência do que estava acontecendo. “Eu sabia”, diz. Em outro momento, descreve o próprio estado emocional como “dissociado”. “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”, afirma.

Ela também reconhece que poderia ter impedido o crime. “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria”, declara. “O que eu fiz não tem mais volta”, acrescenta.

Um dos poucos momentos de questionamento mais incisivo no documentário ocorre quando a delegada Cíntia Tucunduva menciona a versão policial de que Suzane teria sido encontrada em uma festa na casa da família pouco tempo depois do crime, usando biquíni, fumando e com uma lata de cerveja na mão.

Segundo a delegada, Suzane teria mostrado o imóvel como se fosse um local de visitação, indicando onde o assassinato havia acontecido. No documentário, a condenada contesta esse relato e afirma que seria impossível realizar uma festa no local logo após as mortes. “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, diz.

Vida atual e tentativa de ruptura com o passado

Outro ponto que chama atenção na produção é a exposição da vida pessoal atual de Suzane. Ela aparece ao lado do marido, o médico Felipe Zecchini Muniz, que relata ter iniciado contato com ela por meio das redes sociais para encomendar sandálias customizadas para as filhas. A partir disso, os dois começaram um relacionamento.

As enteadas de Suzane e o filho pequeno do casal também aparecem em cenas domésticas, numa tentativa de reforçar a imagem de reconstrução da vida familiar. Na parte final do documentário, Suzane afirma que a mulher que participou do assassinato dos pais “ficou no passado”.

“Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, diz. Ao falar sobre fé, ela afirma encontrar no filho a certeza de perdão divino: “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”.

Apesar do discurso de transformação, Suzane admite que continua sendo reconhecida em espaços públicos e que não consegue se desvincular completamente da repercussão do caso. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”, afirma.

Com informações do Globo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *